Quando a menor partícula da matéria é um centavo
O pragmatismo do boleto: por que a classe média brasileira confunde extrato bancário com inteligência econômica
Artigo de Antenor Emerich - 17 de julho de 2026
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| Imagem: Argumento Antenor Emerich - Montagem: GEMINI |
Ao longo de mais de quarenta anos observando a dinâmica social do nosso país, vi essa frase esmagar vocações artísticas, enterrar sonhos de jovens que queriam ser pintores, filósofos ou cientistas políticos, e direcionar gerações para o funil seguro das profissões liberais. O objetivo coletivo da nossa classe média foi reduzido a uma meta única e obsessiva: a capitalização. Direito, medicina ou engenharia não como caminhos de vocação ou construção civilizatória, mas como passaportes para o condomínio fechado.
Não há crime em querer prosperar. O problema reside no efeito colateral dessa obsessão, que reduz toda a existência a uma métrica puramente contábil. É a consagração de um aforismo que carrego comigo há vinte anos: para essa mentalidade, a menor partícula da matéria não é o átomo, é o centavo. Dessa divisão infinita do ganho, nasce a nossa cegueira social.
Ao focar todas as suas energias cognitivas no micro — no rendimento do CDI, na fração do juro e no imposto do próprio bolso —, a classe média brasileira operou uma espécie de lobotomia em sua capacidade de compreender o macro. Ela se tornou profundamente letrada em acumular, mas analfabeta em entender.
É essa
mentalidade que explica o abismo que vemos hoje no debate público. O
cidadão médio sabe de cor a taxa do seu financiamento, mas é
incapaz de compreender a arquitetura de uma política social. Para
ele, qualquer projeto de distribuição de renda ou investimento
estrutural não passa de "sustentar vagabundo" ou "gasto
público excessivo", porque sua régua lógica é a da
contabilidade doméstica. Ele tenta gerenciar um país complexo, de
dimensões continentais e desigualdades abissais, como se estivesse
auditando a planilha de custos do próprio condomínio.
Essa
ignorância sobre a estrutura econômica e social não é por falta
de acesso à informação; é por desinteresse utilitarista. Se a
discussão não render dividendos imediatos na conta jurídica ou
física, ela é descartada como "ideologia".
O
resultado é uma classe social que se julga a elite intelectual do
país apenas porque tem liquidez financeira, mas que se deixa guiar,
com uma facilidade assustadora, pelas narrativas mais rasas e pelas
teorias da conspiração mais absurdas do WhatsApp. Afinal, para quem
passou a vida inteira respondendo apenas "o que eu ganho com
isso?", conceitos como pacto social, soberania e desenvolvimento
humano parecem moedas sem nenhum valor de troca.

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