Quando a menor partícula da matéria é um centavo

O pragmatismo do boleto: por que a classe média brasileira confunde extrato bancário com inteligência econômica

​Artigo de Antenor Emerich - 17 de julho de 2026


Imagem: Argumento Antenor Emerich - Montagem: GEMINI



Aos 16 anos, no início da minha trajetória na imprensa, ouvi pela primeira vez uma pergunta que viria a se tornar o mantra, o hino e a bússola moral da classe média brasileira: "Mas o que é que você vai ganhar com isso?".

​Ao longo de mais de quarenta anos observando a dinâmica social do nosso país, vi essa frase esmagar vocações artísticas, enterrar sonhos de jovens que queriam ser pintores, filósofos ou cientistas políticos, e direcionar gerações para o funil seguro das profissões liberais. O objetivo coletivo da nossa classe média foi reduzido a uma meta única e obsessiva: a capitalização. Direito, medicina ou engenharia não como caminhos de vocação ou construção civilizatória, mas como passaportes para o condomínio fechado.

​Não há crime em querer prosperar. O problema reside no efeito colateral dessa obsessão, que reduz toda a existência a uma métrica puramente contábil. É a consagração de um aforismo que carrego comigo há vinte anos: para essa mentalidade, a menor partícula da matéria não é o átomo, é o centavo. Dessa divisão infinita do ganho, nasce a nossa cegueira social.

​Ao focar todas as suas energias cognitivas no micro — no rendimento do CDI, na fração do juro e no imposto do próprio bolso —, a classe média brasileira operou uma espécie de lobotomia em sua capacidade de compreender o macro. Ela se tornou profundamente letrada em acumular, mas analfabeta em entender.

​É essa mentalidade que explica o abismo que vemos hoje no debate público. O cidadão médio sabe de cor a taxa do seu financiamento, mas é incapaz de compreender a arquitetura de uma política social. Para ele, qualquer projeto de distribuição de renda ou investimento estrutural não passa de "sustentar vagabundo" ou "gasto público excessivo", porque sua régua lógica é a da contabilidade doméstica. Ele tenta gerenciar um país complexo, de dimensões continentais e desigualdades abissais, como se estivesse auditando a planilha de custos do próprio condomínio.

​Essa ignorância sobre a estrutura econômica e social não é por falta de acesso à informação; é por desinteresse utilitarista. Se a discussão não render dividendos imediatos na conta jurídica ou física, ela é descartada como "ideologia".

​O resultado é uma classe social que se julga a elite intelectual do país apenas porque tem liquidez financeira, mas que se deixa guiar, com uma facilidade assustadora, pelas narrativas mais rasas e pelas teorias da conspiração mais absurdas do WhatsApp. Afinal, para quem passou a vida inteira respondendo apenas "o que eu ganho com isso?", conceitos como pacto social, soberania e desenvolvimento humano parecem moedas sem nenhum valor de troca.

Comentários

Postagens mais vistas

A esfinge de Pandora

A baleia encalhada

O papagaio pirata