Eu consigo, porque você não consegue?
Artigo, no tom ensaístico-reflexivo de O TOM DA RETÓRICA. Sem didatismo barato, com ironia limpa e lâmina embutida. Por Antenor Emerich Eu consigo. Por que você não consegue? Há frases que não pedem resposta. Pedem silêncio. Ou análise. “Eu consigo, por que você não consegue?” não é uma pergunta inocente. É uma conclusão travestida de curiosidade. Ela parte do resultado e ignora o caminho. Parte do “eu” e despreza o mundo. Parte da exceção e a transforma em regra moral. Costuma aparecer como incentivo, mas funciona como acusação. Quem a pronuncia já decidiu: se eu cheguei, você falhou. Para expor o truque, basta deslocar o cenário. Eu escrevo poemas. Por que você não escreve? Eu escrevo crônicas. Por que você não escreve? Eu escrevo contos. É fácil. Se eu posso, você também pode. A frase, aplicada à literatura, soa imediatamente absurda. E é justamente aí que ela revela sua falência lógica. Ninguém afirmaria, com seriedade, que escrever é fácil só porque alguém escreve. Ninguém di...