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  O IRÃ E O URÂNIO Quando o Brasil peitou os "Donos do Mundo" O texto que republico hoje foi escrito em 3 de março de 2010 . Para quem não se recorda do cenário, aquele mês foi o estopim de uma das maiores ousadias da diplomacia brasileira. Enquanto as potências ocidentais pressionavam por sanções severas contra o governo de Mahmoud Ahmadinejad, o Brasil — sob a liderança do então presidente Lula e do chanceler Celso Amorim — defendia que "ainda era tempo para a diplomacia". Naquela exata semana de março de 2010, os inspetores da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) estavam em campo, enquanto o Irã anunciava o início do enriquecimento de urânio a 20%. O clima era de guerra iminente. O Brasil, junto com a Turquia, tentava costurar o que viria a ser a Declaração de Teerã , um acordo de troca de combustível nuclear que visava garantir a soberania iraniana sem a necessidade de armas. Ao reler estas linhas escritas há 16 anos, percebo que a pergun...

FINAL DA COPA 2026

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  O TOM DA RETÓRICA: FINAL DA COPA 2026 - Por Antenor Emerich - O espantoso não é o preço na bilheteria; é o estádio lotado. Assistir à final da Copa do Mundo de 2026 está custando dez mil dólares. O povo sustenta o espetáculo pagando alto para assistir: na arquibancada, no grito, no manto suado. O povo emana a paixão. Entrega o peito. Suor e sangue na camisa oficial, parcelada em doze vezes. O grito volta em forma de boleto. O amor volta em forma de multa, se você pular a catraca. Dez mil dólares para ver vinte e dois milionários correrem atrás da bola. E oitenta mil pessoas acham que o negócio é justo. Porque não compraram um jogo; compraram o direito de dizer: "Eu estava lá". Compraram a estatística de serem a minoria que assistiu in loco à final do mundo. A torcida sustenta o clube, os atletas e a vaidade. Tudo é vaidade, já dizia o Eclesiastes. Maior que a paixão pelo time é o sentimento de fazer parte de um grande grupo. A satisfação não está no esporte; está no perten...

A fábula ridícula de La Fontaine

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A Fábula Ridícula de La Fontaine Por Antenor Emerich Contaram para você que a cigarra canta o verão inteiro enquanto a formiga trabalha. Mentira. A fêmea bota os ovos e morre. Não tem violão. Não tem preguiça. Tem função. O ovo cai. Vira ninfa. Entra na terra. Fica lá: 4 anos, 17 anos. No escuro. Sem sol. Sem aplauso. Depois, cava. Sobe na árvore. Troca de pele. Vira adulta por um único verão. O macho canta. Grita agudo. Alto. Não é festa: é instinto. Ele tem apenas 30 dias para achar a fêmea silenciosa, acasalar e morrer. Dezessete anos de chão para trinta dias de canto. A formiga guarda comida? A cigarra guardou a espécie. La Fontaine não sabia de biologia; sabia de casta. Inventou a fábula para a criança obedecer. Para você achar que quem canta é vagabundo. Para você bater palma para a formiga que carrega folha o dia inteiro para o formigueiro da rainha. A moral da elite é clara: Trabalhe. Não cante.

O TOM DA RETÓRICA: O SENSO COMUM EM ALTA DEFINIÇÃO

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  Antenor Emerich A internet não criou o senso comum. Ela apenas acendeu a luz. Antes, ele vivia confortável na penumbra — repetido em mesas de bar, herdado em conversas de família, sustentado por manchetes mastigadas. Era limitado pelo alcance da voz. Então veio a internet. E com ela, o espetáculo. O que antes era local, tornou-se global. O que antes era dito por poucos, passou a ser repetido por milhões. E o que antes parecia opinião… revelou-se padrão. A internet deixou bem evidente essa história de “senso comum”. Escancarou sua anatomia. Ele não pensa — replica. Não questiona — reage. Não constrói — compartilha. E o mais curioso: quanto mais pessoas concordam, mais verdadeiro ele parece. Como se a quantidade fosse um argumento. Likes viraram aval. Compartilhamentos viraram prova. E a repetição — essa velha técnica de domesticação — ganhou velocidade de fibra ótica. Não é mais necessário convencer. Basta circular. Nesse ambiente...

HIPOCRISIA: O INGREDIENTE ESSENCIAL PARA O SUCESSO

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Antenor Emerich Há um momento sutil na vida de qualquer aspirante ao sucesso. Não é quando ele aprende algo novo. É quando ele desaprende a dizer. A princípio, é apenas cautela. Uma palavra engolida aqui, uma opinião podada ali. Nada demais — apenas o ajuste fino de quem começa a entender que o mundo não recompensa verdades, mas performances. Então, quase sem perceber, ele começa a cuidar do que diz. Lapida frases. Calcula reações. Mede olhares. E nesse zelo cirúrgico, algo essencial se perde: ele já não diz o que pensa — diz o que convém. O pensamento vira rascunho permanente. A fala, produto final. E assim nasce uma nova arquitetura interna: em vez de pontes, muros. Muros feitos de silêncio estratégico, de concordâncias falsas, de discordâncias adiadas até nunca. Do lado de dentro, ele se protege. Do lado de fora, ele prospera. Porque o sucesso — esse animal social — não exige coragem, exige adaptação. E adaptação, quando levada ao extremo, a...

Brasil encoberto

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 Desocobriram o Brasil. Não foi um gesto heroico, foi um rasgo. Não foi chegada, foi invasão com nome lavado. Chacinaram os nativos. E depois chamaram de progresso, como se a palavra fosse um pano úmido capaz de limpar sangue seco na terra. Trouxeram negros como escravos. Corrigindo: sequestraram vidas, embarcaram corpos, negociaram almas como quem troca sacas de café. E ainda tiveram a ousadia de escrever “civilização” na capa desse livro. Chamam índios de vadios e negros de malandros. A ironia aqui não é fina, é grotesca. Quem saqueou chama o outro de preguiçoso. Quem explorou chama o outro de oportunista. É o ladrão vestindo toga e apontando o dedo com indignação ensaiada. Viva... Viva o quê, exatamente? Viva a narrativa que se repete como um eco mal resolvido? Viva a estátua erguida sobre ossos que ninguém quis contar? Viva o hino cantado com a garganta limpa e a memória suja? O Brasil não foi descoberto. Foi encoberto. Encoberto por versões convenientes, por livros didáticos a...

EGOTRIP

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**DE VOLTA AO ENCONTRO**  Crônica de Antenor Emerich  Imagem: argumento Antenor Emerich – desenho CHATGPT          Houve um tempo em que eu cabia na palma da minha própria mão. Não porque eu fosse pequeno — mas porque eu era portátil. Carregava comigo um mundo inteiro que não era meu. Vozes, urgências, imagens, desejos emprestados. Um desfile constante de vontades alheias atravessando o meu silêncio como quem invade uma casa sem bater. E eu deixava. Até o dia em que o peso ficou evidente. Não nos ombros — mas na atenção. Não no corpo — mas na consciência.           Largar o celular não foi um gesto tecnológico. Foi quase um gesto existencial. Como quem solta uma corrente invisível e, por um instante, sente falta do barulho do metal arrastando no chão. No começo, houve inquietação. O hábito chamava como um vício educado: discreto, insistente, convincente. Quase voltei. Mas permaneci. E foi então que algo curioso acon...