PINK FLOYD FASCISTA

 

Estudo comprova: é possível ouvir Pink Floyd sem compreender uma única música

Relatório preliminar do Instituto Internacional de Neuroacústica Aplicada à Surdez Ideológica (IINASI)


Artigo de Antenor Emerich



Durante décadas, neurologistas, psicólogos, musicólogos e dois guitarristas desempregados tentaram responder a uma questão considerada insolúvel pela ciência moderna:

Como alguém pode passar quarenta anos ouvindo Pink Floyd e não perceber do que Roger Waters está falando?

Até hoje, acreditava-se tratar de uma lenda urbana.

Os dados, porém, demonstram o contrário.

Após uma extensa pesquisa, envolvendo milhares de discos de vinil, fitas cassete, CDs, serviços de streaming e comentários de redes sociais, nossa equipe identificou uma rara alteração cognitiva que recebeu o nome de Síndrome da Audição Seletiva Progressiva.

O paciente escuta.

Mas não ouve.

Mais precisamente, a guitarra entra.

A letra não.

Os exames revelam que os acordes percorrem normalmente o sistema nervoso. David Gilmour produz arrepios, Nick Mason mantém o ritmo cardíaco estável e Richard Wright cria estados contemplativos.

Entretanto, quando a voz de Roger Waters começa a denunciar autoritarismo, fanatismo, alienação, militarismo, intolerância ou manipulação das massas, ocorre um curioso fenômeno neurológico.

O cérebro aciona um mecanismo automático de autoproteção.

A mensagem é imediatamente desviada para uma região responsável pela nostalgia dos anos setenta.

Nenhuma ideia sobrevive ao trajeto.

Os pesquisadores classificaram a síndrome em três estágios.

No primeiro, o indivíduo acredita que Another Brick in the Wall é apenas uma música contra dever de casa.

No segundo, passa a afirmar que Pink Floyd "não misturava música com política naquela época".

Já no estágio avançado, assiste a The Wall inteiro e conclui que Roger Waters finalmente "coloca ordem na bagunça" quando aparece vestido como um ditador fascista.

Esse último estágio recebeu atenção especial dos pesquisadores.

A princípio, imaginava-se tratar de sarcasmo.

Infelizmente, não.

Os voluntários realmente identificavam o vilão como herói.

Enquanto a obra construía uma gigantesca sátira do fascismo, eles anotavam frases como:

"Gostei desse uniforme."

"Agora começou a parte boa."

"Finalmente alguém teve coragem de falar a verdade."

Os cientistas interromperam os testes por motivos éticos.

Não era possível garantir a segurança emocional dos pesquisadores.

Um dos coordenadores resumiu a experiência:

"É como assistir a O Grande Ditador torcendo por Hitler."

Outro acrescentou:

"É como ler 1984 e imaginar que Orwell estava propondo um plano de governo."

Os casos, contudo, não se restringem ao universo literário.

Também foram registrados indivíduos que acreditam que Renato Russo compôs Que País É Este? como uma homenagem ao Brasil.

E pessoas convencidas de que Chico Buarque escreveu metáforas apenas para exercitar o vocabulário.

No caso específico de The Wall, os resultados chamam atenção.

Quando Roger Waters veste um figurino inspirado na estética fascista, lidera uma multidão ensandecida, aponta inimigos imaginários e transforma pessoas em alvos de perseguição, o roteiro pretende denunciar exatamente o nascimento de um delírio autoritário.

O paciente diagnosticado, entretanto, interpreta a sequência como um excelente programa de governo.

A comunidade científica ainda procura uma explicação.

Alguns pesquisadores defendem que o fenômeno ocorre porque certos ouvintes utilizam apenas metade da obra.

A metade instrumental.

A outra metade, composta por letras, metáforas, contexto histórico, entrevistas do autor e significado artístico, permanece lacrada na embalagem original.

Para facilitar futuros diagnósticos, o Instituto publicou um protocolo simplificado.

Como identificar um portador da síndrome

Pergunte o que ele acha de Roger Waters.

Se responder:

"Ele enlouqueceu recentemente."

O diagnóstico está praticamente fechado.

Roger Waters apenas teve a deselegância de continuar pensando, aos oitenta anos, exatamente o que escrevia aos trinta.

A pesquisa será ampliada nos próximos anos.

Os cientistas pretendem investigar outro fenômeno igualmente intrigante.

Como algumas pessoas conseguem decorar cada nota de um solo de guitarra e, ao mesmo tempo, jamais perceber que a música inteira foi escrita para criticar exatamente aquilo que elas defendem.

Os resultados prometem revolucionar a neurociência.

Ou, pelo menos, explicar boa parte da internet.

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