Paz aqueles de boa vontade

 

A boa vontade não basta

Artigo de Antenor Emerich - 22 de julho de 2026




Há uma ideia que costuma ser recebida como verdade absoluta: basta ter boas intenções.

Não basta.

A boa intenção é um excelente ponto de partida. Mas não substitui o conhecimento. Quando uma pessoa acredita que o desejo de ajudar é suficiente para agir, ela corre um risco perigoso: passa a confiar mais em suas convicções do que na realidade.

Lembro de uma pequena fábula cuja origem desconheço.

Era um dia de inverno rigoroso.

Um macaco observava um peixinho nadando dentro de um aquário. Ao vê-lo mergulhado naquela água gelada, ficou profundamente comovido.

"Coitadinho!", pensou.

Sem hesitar, retirou o peixe da água, envolveu-o cuidadosamente em um cobertor e esperou que ele se aquecesse.

O peixe morreu.

O macaco não era perverso.

Era bondoso.

Seu problema não era a falta de compaixão, mas a falta de conhecimento. Julgou a necessidade do peixe usando a própria experiência. Como ele sentia frio fora da água, imaginou que o peixe sentia o mesmo. Sua boa vontade transformou-se em tragédia.

Essa pequena história atravessa a política, a religião, a educação, a economia, a medicina e até os relacionamentos pessoais.

Quantas vezes tentamos salvar alguém sem compreender sua realidade?

Quantas vezes oferecemos soluções para problemas que nunca estudamos?

Quantas vezes acreditamos que sentir muito é o mesmo que entender profundamente?

Existe um detalhe ainda mais delicado.

A ignorância raramente se apresenta dizendo: "não sei".

Ela costuma vestir a fantasia da certeza.

Quando alguém acredita que sua boa intenção lhe dá autoridade para agir sobre aquilo que desconhece, nasce uma forma particularmente resistente de ignorância: a ignorância convencida de que está fazendo o bem.

É por isso que a boa vontade, sozinha, pode se tornar arrogante.

Não porque exista maldade.

Mas porque desaparece a humildade necessária para perguntar, estudar, ouvir e admitir a possibilidade de estar errado.

Conhecimento sem humanidade pode produzir frieza.

Mas humanidade sem conhecimento pode produzir sofrimento.

A verdadeira virtude talvez esteja na união das duas coisas.

Primeiro compreender.

Depois agir.

Porque a realidade não se dobra às nossas intenções.

O peixe continua precisando de água, mesmo quando alguém, cheio de amor, insiste em lhe oferecer um cobertor.


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