A volta dos que não foram

 

A opinião não substitui a notícia



Artigo de Antenor Emerich – 23 de julho/2026

Durante muito tempo acreditou-se que as redes sociais representariam a democratização definitiva da informação. Qualquer pessoa poderia produzir conteúdo, investigar fatos, comentar acontecimentos e disputar espaço com os grandes veículos de comunicação.

Essa liberdade produziu excelentes resultados. Surgiram especialistas independentes, pesquisadores sérios e comunicadores competentes que enriqueceram o debate público.

Mas também produziu um fenômeno preocupante: a transformação da opinião em notícia.

Hoje, uma parcela dos influenciadores digitais e youtubers já não informa. Interpreta. Não investiga. Confirma as próprias convicções. Não procura compreender os fatos. Procura adaptá-los à narrativa que já estava pronta antes mesmo do acontecimento.

A lógica é simples.

Primeiro escolhe-se o vilão e o herói.

Depois selecionam-se apenas os fatos que favorecem essa conclusão.

O que contradiz a narrativa é ignorado, minimizado ou simplesmente omitido.

O resultado não é jornalismo. É propaganda.

A diferença entre um comentarista sério e um militante digital não está na existência de opiniões. Todo ser humano possui opiniões. A diferença está no método.

O jornalista responsável procura verificar informações, ouvir diferentes versões, conferir documentos, contextualizar os acontecimentos e separar, na medida do possível, o fato da interpretação.

O militante faz o caminho inverso.

Começa pela conclusão e sai à procura dos elementos que possam justificá-la.

Quando os fatos não colaboram, pior para os fatos.

Essa inversão produz um ambiente em que a verdade perde importância. O que passa a valer é aquilo que gera engajamento, confirma preconceitos ou fortalece a identidade do grupo.

A audiência deixa de buscar informação. Passa a buscar confirmação.

O algoritmo recompensa esse comportamento porque indignação rende mais cliques do que prudência. Certezas absolutas viralizam com muito mais facilidade do que dúvidas honestas.

Nesse ambiente, a ética se torna um obstáculo.

Corrigir um erro diminui a autoridade do influenciador.

Reconhecer a complexidade de um tema reduz o impacto emocional do vídeo.

Ouvir quem pensa diferente pode desagradar aos seguidores.

É muito mais lucrativo oferecer respostas simples para problemas complexos.

Talvez seja justamente por isso que muitas pessoas estejam voltando a consumir os meios tradicionais de comunicação.

Não porque sejam tradicionais.

Nem porque sejam perfeitos.

Os grandes veículos também erram. Também sofrem pressões econômicas, políticas e editoriais. Também podem falhar.

Mas, apesar de suas imperfeições, continuam submetidos a princípios que constituem a base do jornalismo profissional: apuração, verificação, direito de resposta, responsabilidade editorial e, sobretudo, a obrigação de corrigir erros quando eles acontecem.

Esses princípios não eliminam o erro.

Mas dificultam a mentira deliberada.

É justamente essa diferença que começa a ser novamente valorizada.

Quando a informação passa a decidir eleições, destruir reputações, movimentar mercados e alimentar conflitos sociais, a ética deixa de ser um detalhe da profissão.

Ela passa a ser uma necessidade da democracia.

Opiniões continuarão existindo. Elas são indispensáveis numa sociedade livre.

Mas opiniões não podem ocupar o lugar dos fatos.

Sem esse limite, deixa de existir jornalismo.

Resta apenas a disputa entre narrativas.

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