Ateu missionário
Antenor Emerich
Nunca entendi o ateu missionário.
Entendo perfeitamente o missionário religioso. Ele está apenas cumprindo a lógica interna de sua própria doutrina. Quase todas as religiões universalistas carregam a ideia de propagação. Converter é parte do pacote.O que me intriga é o ateu que assume exatamente a mesma postura.
Se alguém acredita que não existe Deus, não existem espíritos e não existe qualquer continuidade da consciência após a morte, por que a urgência em converter terceiros? Que diferença prática faz se o vizinho acredita em anjos, reencarnação ou duendes cósmicos? Por que o impulso evangelizador?
Quando um ateu sente necessidade permanente de convencer os outros, algo curioso acontece: sua descrença começa a se comportar como uma crença. O discurso muda de forma, mas preserva a estrutura. Surgem os hereges, os convertidos, os iluminados pela razão e até os sermões.
A religião possui seus missionários. O ateísmo militante parece ter desenvolvido os seus.
Talvez isso revele uma característica humana mais profunda do que a própria religião. Talvez as pessoas não estejam apenas em busca da verdade. Talvez estejam em busca de companhia. Uma convicção compartilhada é sempre mais confortável do que uma convicção solitária.
Há quem pregue Deus por fé. Há quem pregue a ausência de Deus com o mesmo fervor.
Em ambos os casos, o que está sendo defendido nem sempre é uma conclusão. Muitas vezes é uma identidade.
Suspeito que existam diferentes espécies de ateus.
Existe o ateu filosófico, que chegou às suas conclusões por reflexão profunda e convive tranquilamente com a dúvida.
Existe o ateu científico, que considera insuficientes as evidências apresentadas para qualquer realidade sobrenatural.
Existe o ateu indiferente, que simplesmente não se interessa pelo assunto.
E existe o ateu missionário.
Este último é o mais curioso de todos. Não lhe basta não acreditar. Ele precisa que os outros também não acreditem. Não lhe basta ter abandonado um templo. Ele precisa derrubar os templos alheios dentro da cabeça dos outros.
Nesse ponto, já não está tão distante daquilo que combate.
Mudou o conteúdo da pregação.
A necessidade de pregar permaneceu intacta.

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