O TOM DA RETÓRICA: O SENSO COMUM EM ALTA DEFINIÇÃO

 Antenor Emerich


A internet não criou o senso comum.

Ela apenas acendeu a luz.



Antes, ele vivia confortável na penumbra —

repetido em mesas de bar, herdado em conversas de família, sustentado por manchetes mastigadas.

Era limitado pelo alcance da voz.


Então veio a internet.

E com ela, o espetáculo.


O que antes era local, tornou-se global.

O que antes era dito por poucos, passou a ser repetido por milhões.

E o que antes parecia opinião… revelou-se padrão.


A internet deixou bem evidente essa história de “senso comum”.

Escancarou sua anatomia.


Ele não pensa — replica.

Não questiona — reage.

Não constrói — compartilha.


E o mais curioso:

quanto mais pessoas concordam, mais verdadeiro ele parece.

Como se a quantidade fosse um argumento.


Likes viraram aval.

Compartilhamentos viraram prova.

E a repetição — essa velha técnica de domesticação — ganhou velocidade de fibra ótica.


Não é mais necessário convencer.

Basta circular.




Nesse ambiente, a dúvida virou fraqueza.

A pausa virou irrelevância.

E o pensamento… um atraso de carregamento.


O senso comum, antes tímido, agora performa.

Ganha filtros, trilha sonora, legenda em caixa alta.

Vira tendência.


E quem ousa sair desse fluxo —

quem tenta pensar fora do script coletivo —

não é debatido.


É ignorado… ou ridicularizado.


Porque pensar, hoje, é quase um ato antisocial.


No fundo, a internet não revelou apenas o senso comum.

Ela revelou o quanto dependemos dele

para não precisarmos pensar sozinhos.


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