EGOTRIP
**DE VOLTA AO ENCONTRO**
Houve um tempo em que eu cabia na palma da minha própria mão.
Não porque eu fosse pequeno — mas porque eu era portátil.
Carregava comigo um mundo inteiro que não era meu. Vozes, urgências, imagens, desejos emprestados. Um desfile constante de vontades alheias atravessando o meu silêncio como quem invade uma casa sem bater.
E eu deixava.
Até o dia em que o peso ficou evidente.
Não nos ombros — mas na atenção.
Não no corpo — mas na consciência.
Crônica de Antenor EmerichImagem: argumento Antenor Emerich – desenho CHATGPT
Houve um tempo em que eu cabia na palma da minha própria mão.
Não porque eu fosse pequeno — mas porque eu era portátil.
Carregava comigo um mundo inteiro que não era meu. Vozes, urgências, imagens, desejos emprestados. Um desfile constante de vontades alheias atravessando o meu silêncio como quem invade uma casa sem bater.
E eu deixava.
Até o dia em que o peso ficou evidente.
Não nos ombros — mas na atenção.
Não no corpo — mas na consciência. Largar o celular não foi um gesto tecnológico. Foi quase um gesto existencial. Como quem solta uma corrente invisível e, por um instante, sente falta do barulho do metal arrastando no chão.
No começo, houve inquietação.
O hábito chamava como um vício educado: discreto, insistente, convincente.
Quase voltei.
Mas permaneci.
E foi então que algo curioso aconteceu:
não encontrei o vazio.
Encontrei espaço.
Um espaço onde comecei a ouvir vozes antigas — não as de fora, mas as de dentro.
O Id, inquieto, ainda sussurra seus impulsos, suas vontades cruas, quase infantis, como um animal que não esqueceu a floresta.
O Ego, esse diplomata cansado, tenta organizar a casa, negociar com o mundo, manter alguma coerência entre o que sou e o que esperam que eu seja.
O Superego, vigilante, ergue seus julgamentos, seus códigos, suas exigências silenciosas — às vezes justas, às vezes severas demais.
E, entre eles, algo novo começa a surgir:
um Alter Ego não como fuga… mas como possibilidade.
Não um outro eu para escapar, mas um eu possível para escolher.
Percebo, então, que passei tempo demais sendo fragmento.
Um pedaço reagindo ao mundo, outro tentando agradar, outro tentando sobreviver.
Agora, neste silêncio reconquistado, começo a me reunir.
Não completamente.
Não perfeitamente.
Mas honestamente.
Voltar a mim não foi um retorno nostálgico, como quem reencontra uma versão antiga esquecida numa gaveta.
Foi um encontro inédito, como se eu estivesse me conhecendo pela primeira vez — sem interrupções.
E talvez seja isso que mais assusta o mundo lá fora:
um homem que não está distraído é um homem que começa a escolher.
E quem escolhe… já não pode ser conduzido com tanta facilidade.
Hoje, não carrego mais o mundo na mão.
Carrego algo mais difícil, mais silencioso, mais verdadeiro: a mim mesmo.
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