Brasil encoberto

 Desocobriram o Brasil.


Não foi um gesto heroico, foi um rasgo. Não foi chegada, foi invasão com nome lavado.

Chacinaram os nativos.
E depois chamaram de progresso, como se a palavra fosse um pano úmido capaz de limpar sangue seco na terra.

Trouxeram negros como escravos.
Corrigindo: sequestraram vidas, embarcaram corpos, negociaram almas como quem troca sacas de café. E ainda tiveram a ousadia de escrever “civilização” na capa desse livro.

Chamam índios de vadios e negros de malandros.
A ironia aqui não é fina, é grotesca. Quem saqueou chama o outro de preguiçoso. Quem explorou chama o outro de oportunista. É o ladrão vestindo toga e apontando o dedo com indignação ensaiada.

Viva...
Viva o quê, exatamente?

Viva a narrativa que se repete como um eco mal resolvido?
Viva a estátua erguida sobre ossos que ninguém quis contar?
Viva o hino cantado com a garganta limpa e a memória suja?

O Brasil não foi descoberto.
Foi encoberto.

Encoberto por versões convenientes, por livros didáticos anestesiados, por discursos que preferem o conforto da mentira ao desconforto da verdade. Aqui, a história não é contada — ela é editada. Cortam-se as partes que incomodam, ampliam-se as que absolvem.

E o mais curioso é que o roteiro segue em cartaz.
Mudam os figurinos, mudam os atores, mas a peça continua. Ainda se olha para o originário como obstáculo, para o descendente como suspeito, para o passado como algo que “já passou”, como se o tempo tivesse a gentileza de enterrar injustiças por conta própria.

Mas não enterra.
O passado no Brasil não passa — ele vaza.

Vaza nas desigualdades, nas piadas, nas políticas, nos silêncios. Vaza na forma como se distribui respeito e na facilidade com que se distribui desprezo.

Desocobriram o Brasil, sim.
Arrancaram dele o direito de se reconhecer.

E no lugar da identidade, plantaram um espelho distorcido, onde o país se vê como gostaria de ter sido — e não como foi.

O problema não é olhar para trás.
É continuar fingindo que não viu nada.

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