Eu consigo, porque você não consegue?
Artigo, no tom ensaístico-reflexivo de O TOM DA RETÓRICA.
Sem didatismo barato, com ironia limpa e lâmina embutida.
Por Antenor Emerich
Eu consigo. Por que você não consegue?
Há frases que não pedem resposta.
Pedem silêncio.
Ou análise.
“Eu consigo, por que você não consegue?”
não é uma pergunta inocente.
É uma conclusão travestida de curiosidade.
Ela parte do resultado e ignora o caminho.
Parte do “eu” e despreza o mundo.
Parte da exceção e a transforma em regra moral.
Costuma aparecer como incentivo, mas funciona como acusação.
Quem a pronuncia já decidiu: se eu cheguei, você falhou.
Para expor o truque, basta deslocar o cenário.
Eu escrevo poemas.
Por que você não escreve?
Eu escrevo crônicas.
Por que você não escreve?
Eu escrevo contos.
É fácil.
Se eu posso, você também pode.
A frase, aplicada à literatura, soa imediatamente absurda.
E é justamente aí que ela revela sua falência lógica.
Ninguém afirmaria, com seriedade, que escrever é fácil só porque alguém escreve.
Ninguém diria que quem não escreve falhou como ser humano.
Ninguém reduziria o silêncio criativo do outro a preguiça, incompetência ou falta de mérito.
Porque sabemos, mesmo sem teorizar, que escrever exige tempo, contexto, desejo, insistência, fracasso, algum abrigo interior.
E, ainda assim, não acontece para todos.
Não por culpa.
Por condição.
Curiosamente, quando o assunto deixa de ser arte e passa a ser sucesso, dinheiro ou ascensão social, o raciocínio muda.
A mesma lógica torta passa a ser celebrada como virtude.
O acaso vira esforço.
A ajuda vira mérito.
O privilégio vira invisível.
E o fracasso alheio vira prova de defeito moral.
O “eu consegui” transforma-se em argumento universal.
A própria biografia vira manual.
O outro deixa de ser alguém com uma história e passa a ser um erro de execução.
É uma retórica confortável.
Ela absolve quem chegou
e condena quem ficou para trás
sem jamais olhar para o terreno, o vento, o peso carregado.
Talvez a pergunta honesta nunca tenha sido
“por que você não conseguiu?”,
mas
o que me foi dado
que a você foi negado?
Refletir sobre isso não diminui conquistas.
Apenas impede que elas sejam usadas como arma.
Porque há vitórias que dizem menos sobre virtude
e mais sobre circunstância.
E há fracassos que não são falha,
são consequência.
No fim, cada um escreve com a mão que tem.
E vive com as condições que recebeu.
Todo discurso que ignora isso
não é motivacional.
É só retórica.
E de tom bem conhecido.
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