Ordem e progresso


No Brasil, a ordem sempre foi o nome educado do medo do povo.

Artigo de Antenor Emerich

Desde a proclamação da República, o país escolheu se organizar não a partir da soberania popular, mas a partir de um princípio anterior e supostamente neutro: a ordem. Não por acaso, ela vem antes do progresso, e jamais aparece acompanhada de liberdade, igualdade ou participação. A bandeira nacional não mente. Ela anuncia, com clareza simbólica, a filosofia política que moldou nossa elite.

O positivismo de Augusto Comte encontrou no Brasil um terreno fértil. Aqui, suas ideias não foram apenas estudadas, foram institucionalizadas. A crença na sociedade conduzida por técnicos, especialistas, engenheiros sociais e militares caiu como luva para uma elite que sempre desconfiou da política e temeu o povo. A República nasceu sem povo, proclamada por homens fardados, iluminados por teorias científicas e profundamente avessos à desordem democrática.


Para o positivismo, o povo não é sujeito histórico, é objeto pedagógico. Deve ser educado, disciplinado, conduzido. A política, nessa lógica, não é arena de conflito, mas problema técnico. O dissenso é visto como falha de método. O conflito social, como ruído. A democracia, quando aceita, é sempre tutelada.


Essa herança atravessa os séculos e segue viva. Ela se manifesta quando direitos são relativizados em nome da estabilidade. Quando eleições são aceitas apenas se produzirem o resultado “correto”. Quando a vontade popular precisa ser contida por tribunais, quartéis, mercados ou editoriais preocupados com a “responsabilidade”.


No Brasil, a ordem quase nunca protegeu o cidadão comum. Protegeu propriedades, hierarquias e privilégios. Foi invocada para conter greves, silenciar movimentos sociais, justificar golpes e naturalizar desigualdades. Sempre que o povo se aproximou demais do poder, alguém acendeu o alerta da desordem.


Já o progresso, prometido como consequência natural dessa ordem, raramente significou emancipação. Progresso aqui costuma ser sinônimo de crescimento econômico sem redistribuição, modernização sem inclusão, desenvolvimento sem justiça. É o progresso das estatísticas, não o da vida concreta. Avança o PIB, recua a dignidade. Sobem gráficos, descem direitos.


A elite brasileira, herdeira direta desse positivismo tardio, ainda pensa o país como um laboratório e a população como variável de ajuste. Prefere soluções técnicas a escolhas políticas. Fala em pacificação social quando o que existe é silenciamento. Chama desigualdade de distorção, nunca de projeto.


Por isso, nossa história é marcada por rupturas sem ruptura, mudanças sem transformação. Mudam os regimes, permanecem os métodos. A ordem continua sendo o valor supremo, e o povo, um risco a ser administrado.


Enquanto não questionarmos o lema que nos governa, seguiremos presos à sua lógica. Uma lógica que aceita o progresso desde que não venha acompanhado de participação. Que tolera a democracia desde que ela não desorganize o tabuleiro. Que teme, acima de tudo, o momento em que o povo deixe de ser conduzido e passe a conduzir.



A bandeira não é apenas um símbolo nacional. É uma confissão histórica. E talvez seja hora de lê-la não com orgulho automático, mas com a desconfiança crítica que toda retórica de poder exige.


Comentários

  1. Uma revolução socialista, comunista, de ditadura do proletariado em um primeiro momento, seria isso o que temem?Não querem transigir de regime, porque é óbvio, perda de poder , de mando, de consumo, etc.Voltamos a estaca zero, ser humano, quando vai deixar de ser essa besta?

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