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Mostrando postagens de janeiro, 2026

A solução fácil

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A questão da cognição Quando o problema é grande, muita gente procura a resposta mais simples. Não a melhor. A mais fácil. Na violência, essa resposta costuma ser: matar o bandido. Parece lógico. Parece rápido. Parece eficiente. Mas isso é pensamento de criança. Dou um exemplo real. Em sala de aula, alunos da quinta série escreveram redações. Histórias diferentes, personagens diferentes, conflitos variados. Mas todas, sem exceção, terminavam do mesmo jeito: alguém morria. Matar era a forma mais fácil de encerrar a história. O conflito acabava ali. Não precisava pensar mais. Adultos fazem exatamente a mesma coisa. O problema da sociedade é complexo. Envolve desigualdade, educação ruim, falta de oportunidades, ausência do Estado, cultura da violência. Isso dá trabalho para pensar. Dá trabalho para resolver. Então surge a saída curta: elimina o bandido. Mas matar não resolve sistema. Matar não corrige estrutura. Matar não impede que outro ocupe o mesmo lugar amanhã. É como apag...

Cognição: quando pensar deixa de ser um ato conscient

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 [11:56, 22/01/2026] Antenor Emerich Cognição é, em termos simples, a capacidade de perceber, interpretar, organizar e agir a partir da realidade. Pensar, lembrar, aprender, decidir, antecipar consequências. Não é apenas inteligência, nem apenas memória. É o sistema operacional da consciência em funcionamento. Argumento da imagem: Antenor Emerich. Realizaçao daimagem: ChatGPT O problema começa quando a cognição falha, não de forma pontual, mas estrutural. Deficiência cognitiva não se resume a quadros clínicos ou neurológicos. Há um tipo de deficiência cognitiva funcional, socialmente produzida e culturalmente incentivada, que se manifesta no cotidiano de pessoas aparentemente saudáveis, escolarizadas e informadas. Ela aparece quando o indivíduo: • Não consegue sustentar uma ideia até o fim • Confunde opinião com fato • Reage antes de compreender • Repete narrativas sem examiná-las • É incapaz de revisar a própria crença diante de novas evidências Nesse caso, o p...

Ordem e progresso

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No Brasil, a ordem sempre foi o nome educado do medo do povo. Artigo de Antenor Emerich Desde a proclamação da República, o país escolheu se organizar não a partir da soberania popular, mas a partir de um princípio anterior e supostamente neutro: a ordem. Não por acaso, ela vem antes do progresso, e jamais aparece acompanhada de liberdade, igualdade ou participação. A bandeira nacional não mente. Ela anuncia, com clareza simbólica, a filosofia política que moldou nossa elite. O positivismo de Augusto Comte encontrou no Brasil um terreno fértil. Aqui, suas ideias não foram apenas estudadas, foram institucionalizadas. A crença na sociedade conduzida por técnicos, especialistas, engenheiros sociais e militares caiu como luva para uma elite que sempre desconfiou da política e temeu o povo. A República nasceu sem povo, proclamada por homens fardados, iluminados por teorias científicas e profundamente avessos à desordem democrática. Para o positivismo, o povo não é sujeito histórico, é objet...

Eu consigo, porque você não consegue?

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Artigo, no tom ensaístico-reflexivo de O TOM DA RETÓRICA. Sem didatismo barato, com ironia limpa e lâmina embutida. Por Antenor Emerich  Eu consigo. Por que você não consegue? Há frases que não pedem resposta. Pedem silêncio. Ou análise. “Eu consigo, por que você não consegue?” não é uma pergunta inocente. É uma conclusão travestida de curiosidade. Ela parte do resultado e ignora o caminho. Parte do “eu” e despreza o mundo. Parte da exceção e a transforma em regra moral. Costuma aparecer como incentivo, mas funciona como acusação. Quem a pronuncia já decidiu: se eu cheguei, você falhou. Para expor o truque, basta deslocar o cenário. Eu escrevo poemas. Por que você não escreve? Eu escrevo crônicas. Por que você não escreve? Eu escrevo contos. É fácil. Se eu posso, você também pode. A frase, aplicada à literatura, soa imediatamente absurda. E é justamente aí que ela revela sua falência lógica. Ninguém afirmaria, com seriedade, que escrever é fácil só porque alguém escreve. Ninguém di...